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O Movimento Modernista no Brasil

 

O design moderno brasileiro foi um momento de criação coletiva que marcou a história não somente do design brasileiro, como a do design internacional.

 

Ele foi um ponto de encontro para uma grande variedade de inspirações, ideias e fenômenos.

 

O evento cultural fundador desse movimento foi a "Semana de 22" ou "Semana de arte moderna", que aconteceu em 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. O evento reuniu artistas cujas obras rompiam com a arte da época, marcadas pelo encontro do academicismo com a inspiração colonial. Com suas próprias influências marcadas pelo cubismo, surrealismo e futurismo, os artistas envolvidos e suas obras enfatizaram a expressão de uma interpretação original enraizada na cultura brasileira.

 

A partir desta tensão, nasceram formas singulares e reconhecíveis, cuja dinâmica e intuição - traços da arte que despontava, continuaram ressoando no imaginário da época e, sobretudo, no campo do Design. É, portanto, um movimento que combina arte moderna e uma identidade particular, buscando novas formas de expressão da complexidade da alma brasileira.

 

Neste desejo de contextualizar um movimento internacional à cultura local, o design brasileiro imagina uma criação cujas formas inovadoras estão em relação de convergência com os materiais específicos de um território, e em particular a oportunidade de destacar os tipos excepcionais de madeira oferecidos pelos recursos naturais do Brasil. Mas estas formas e materiais escolhidos também deveriam ser adaptados às condições climáticas e estarem em íntima relação com as paisagens brasileiras, especialmente as praias e florestas marcadas pela onipresença de uma Natureza exuberante com vegetação tropical imensamente variada.

 

Um período de criação intensa inscrito em seu tempo

 

O design modernista brasileiro floresceu mais precisamente nos anos 40, com a chegada de refugiados europeus carregando em suas malas sonhos e ideais de utopia social que iam de encontro ao desejo brasileiro da época em dar forma à democracia e tornar a modernidade acessível. Esta visão foi realizada por Juscelino Kubitschek, ainda como Prefeito de Belo Horizonte, antes de se tornar Presidente da República do Brasil em 1956. “JK”, como é comumente nomeado, chamou pela primeira vez o arquiteto Oscar Niemeyer para criar e gerenciar o projeto Pampulha, um vasto complexo modernista ao redor de um lago em Belo Horizonte. Com esse projeto, Niemeyer disse que sua ideia era "tropicalizar o estilo de Le Corbusier", em particular através do uso de curvas e de uma sensualidade mais marcada.

 

Naquela época, Niemeyer conheceu Joaquim Tenreiro, a quem confiou a tarefa de projetar móveis à altura de sua arquitetura. Nascia ali uma relação entre os dois artistas que duraria décadas.

 

A década de 1950 assistiu ao nascimento da industrialização no Brasil, o que desafiou os designers em sua relação com o artesanato, o equilíbrio a ser encontrado entre a intuição e a racionalização da produção, e a tensão positiva entre a influência europeia e o localismo. A industrialização também levou à produção em larga escala de edifícios administrativos e residenciais, o que proporcionou um aumento na demanda por móveis. Foram criadas oficinas para atender a esta demanda, sendo as mais representativas a Oca de Sergio Rodrigues, Moveis Artesanais (mais tarde renomeada para Forma) de Carlo Hauner e Martin Eisler, assim como a Mobília Contemporânea de Michel Arnoult, que popularizou os móveis em kit no Brasil, a fim de oferecer o maior número de pessoas de qualidade a um preço acessível.

 

Este período também foi marcado pelo aparecimento de novas técnicas, como a termoformagem da madeira, particularmente utilizada por Jorge Zalszupin, e de novos materiais, como a madeira compensada, que José Zanine Caldas fez sua matéria-prima favorita nesta época.

 

Foi neste mesmo período que a “criação titânica do ex-nihilo” da capital do país, Brasília, tomou forma, cuja realização em 1000 dias foi compartilhada entre Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Le Corbusier como consultor externo.

 

A criação do Museu de Arte de São Paulo, concluída em 1968 por Lina Bo Bardi, a única mulher projetista deste movimento, foi outro símbolo da vitalidade do modernismo brasileiro.

 

O período da ditadura militar no Brasil iniciado em meados dos anos 1960, retardou temporariamente o movimento, que, no entanto, continuou, como mostra a colaboração de Oscar Niemeyer com sua filha Ana Maria Niemeyer no projeto de uma série excepcional de móveis, dos quais a cadeira do Rio é a obra-prima, bem como o novo estilo de Zanine Caldas. Este último, abandonando a indústria de móveis para retornar à sua região da Bahia, redescobriu a natureza local, tornou-se mais consciente da questão ambiental, em particular o desmatamento, e respondeu criando o estilo Móveis Denúncia. Esta linha de tendências brutalistas, a fim de permanecer o mais próximo possível visualmente da natureza da árvore, utiliza pedaços de madeira considerados até então inadequados para a realização de obras e, portanto, rejeitados, tais como o tronco ou as raízes.

 

Os anos 80 e 90 foram as décadas de transmissão, e o modernismo brasileiro tornou-se uma fonte de inspiração para uma nova geração de designers, alguns dos quais optaram por se distinguir formalmente, como os irmãos Campana e suas criações neobarrocas, que se inspiraram na imaginação da recuperação e da reciclagem estética das favelas.

 

Do movimento modernista de design brasileiro, permanece um importante legado de uma herança específica, tanto em termos das peças que permanecem como testemunho desta época e desta criatividade, quanto em termos da inspiração e caminhos criativos que ela oferece a muitos designers e decoradores contemporâneos de hoje, como Hugo França e Lenny Kravitz.

 

O que oferecemos com a galeria Brazil Modernist é acima de tudo, peças pertencentes à história do Brasil e impressões da capacidade humana de criar. Graças a um olhar bem afinado e a uma experiência desenvolvida, apresentamos aqui uma coleção a partir de uma seleção única de design modernistas brasileiros escolhidos durante visitas regulares ao Brasil a fim de encontrar peças e trazer de volta suas histórias singulares.

    • José Zanine Caldas, Fauteuil, c. 1950
      José Zanine Caldas, Fauteuil, c. 1950
    • Joaquim Tenreiro, Paire de fauteuils, c. 1940
      Joaquim Tenreiro, Paire de fauteuils, c. 1940
    • Joaquim Tenreiro, Table de chevet, c. 1947
      Joaquim Tenreiro, Table de chevet, c. 1947
    • Michel Arnoult, Canapé deux places, c. 1960
      Michel Arnoult, Canapé deux places, c. 1960
    • Móveis Gelli, Fauteuil, c. 1960
      Móveis Gelli, Fauteuil, c. 1960
    • Sergio Rodrigues, Étagère murale et miroir, c. 1965
      Sergio Rodrigues, Étagère murale et miroir, c. 1965
    • Sergio Rodrigues, Lampe de table - "Tcheko", c. 1960
      Sergio Rodrigues, Lampe de table - "Tcheko", c. 1960
    • Giuseppe Scapinelli, Guéridon-Jardinière, c. 1950
      Giuseppe Scapinelli, Guéridon-Jardinière, c. 1950
    • Valdivino Alves da Conceição, Tapisserie , c. 1960
      Valdivino Alves da Conceição, Tapisserie , c. 1960
    • Wauja, Céramique "Serpent - Kamalu-Hai", 2020
    • Carlo Hauner, Fauteuil, c. 1950
      Carlo Hauner, Fauteuil, c. 1950
    • Carlo Hauner, Sofa, c. 1950
      Carlo Hauner, Sofa, c. 1950